João e a Rua

 Dia desses num encontro com os adolescentes, uma menina contou sobre quando ela marcara “um encontro com a cama dela”. Sim, ela disse que “marcava encontro com a cama dela”.

Eu achei aquilo doido e perguntei às crianças com o que eles marcavam encontro. Muitos responderam que marcavam encontro com o celular, um outro respondeu que marcava encontro com o livro, com o computador, com o shopping e por último um menino disse: “eu marco encontro com a Rua”.

Vi nestas pequenas narrativas um pouco de cada criança; o quanto cada encontro poderia ser significativo para cada um deles e simbólico para nós Bruna Amado e eu, que estávamos sempre atentas a tudo que vinha deles, na tentativa de compreendê-los.

O encontro com a Rua, narrado por João, foi o que mais me intrigou. Por muitas vezes me peguei pensando neste encontro. Me recordei que também marcava encontro com a Rua no tempo quando criança.

As poças, os bancos de areia, as construções mal abadadas, os piqueniques nas calçadas, as enxurradas, a caça aos sapos, o asfalto, os vizinhos, as árvores, a chuva, os muros, os carros, os becos e tantas outras coisas próprias da rua da minha infância. Mas, e a Rua do João?

João, esquivava-se dos textos e escritos, suspeitávamos que ele não soubesse ler. A escola de João, era mesmo a Rua, naquele momento, só poderia ser a Rua. João lia o mundo a partir do que se construía entre o céu e a terra, ou melhor, entre o pipa e o asfalto.

 

…meu imaginário sobre a Rua de João…

 

Rega a Rua

De infância tua

Quando distante de casa

…………F l u t u a………………

 

Segue alto

No asfalto

A sirene

Dia seguinte

Acharam dois

Pensei, será que foi João?

João?

Foi Não!

Foi ninguém.

João Ninguém?

 

Sapato sem sola

Pisa no vento e

Cola.

Cola João?

João sola de vento,

teu sapato é o tempo.

 

 

 

Anúncios