MaPIÁmento POÉTICO por FRED DALE:

Como músico, a questão da qualidade de escutas foi um principio pedagógico norteador. Escutar o que os jovens e crianças tinham a dizer, muitas vezes sem palavras. Buscando criar uma pedagogia mais afinada com as demandas reais trazidas pelos piás.
Gostaria de citar duas poéticas que foram de muita valia… A primeira relativa a propor e incentivar num primeiro momento dos encontros com as crianças e jovens,  um Tempo  de Sentir (por partes dos AEs),  de escutas  e de se aproximar das crianças e jovens…algumas vezes deixando mais solto o inicio, outras vezes propondo concentração e interação coletiva. Jogos de nomes, brincadeiras usando bambolês, pular corda, massagem, acrobacias onde um parceiro tem que ajudar o outro (jogos colaborativos), conversas e outros. Nesse momento as energias eram acalmadas e a interação afetiva e de propostas pedagógicas iam se forjando.
A segunda poética relativa à construção de momentos (zonas) de autonomia por parte das crianças e jovens. Em muitos encontros, geralmente no meio , os AEs propunham desafios  para e com os piás, que deveriam tentar sozinhos (apenas piás) a desvendar ou criar propostas artisticas. Como exemplo: criar um roteiro, uma peça ou cena de  teatro, um desfile de moda entre outros…
Zona autônomas de fazeres coletivos. A presença dos AEs estava sempre em prontidão,  porem, muita vezes a distancia (sempre atenta a dar apoio quando
solicitada). Os jovens gostavam bastante destes momentos, mesmo com a real
dificuldade de ter de criar algo.

MaPIÁmento POÉTICO por Lucas Beda:

A escuta como pré-proposição. O lugar da liberdade está no ato de ser. E para ser a criança em liberdade é preciso estar criança.                                                                       Todos os encontros possibilitávamos a criança e ao jovem apenas estarem em convivência coletiva – na experiência com o outro. Só partindo desse encontro era possível entender a abertura que as crianças e/ou jovens nos cediam e assim traçávamos o trajeto que faríamos nas 2 ou 3 horas de encontro. O improviso partindo do repertório de cada Artista promovia um jogo entre todos os envolvidos, tornando cada dia um dia vivo, de vida, onde a letargia da imposição ficava de fora.

MaPIÁmento POÉTICO por Vanessa Biffon:

Buñequita – turma de 5 a 7 anos – Dupla com Lucas Beda
As crianças encontraram na sala do Piá uma agenda cultural do município. Nele havia um mapa da cidade com a foto de um homem misterioso. As crianças ficaram curiosas. No outro dia, começamos a deixar recados desse homem que, aos poucos, tinha se revelado uma mulher. Eles achavam que ela era a responsável por sumir com as coisas que cada um tinha um dia perdido (“eu perdi minha calça nova, deve ter sido ela”, “meu presente nunca veio, ela quem pegou”,  “eu perdi aquela bola de gude”…). Trocaram bilhetes, até que ela apareceu (fizemos uma caça ao tesouro por todo equipamento, até chegar ao tesouro; conhecer Buñequita).                                                                                                                             Buñequita era o nome dela, uma boneca de pano, sem face (boneca que ganhei no meu primeiro ano do PIÁ, em 2011, de um amigo secreto, do Rogério Amorim). Brincaram um dia com ela. No outro encontro, ela sumiu de novo.  E todo encontro ela enviava fotos dos lugares que viajava: foi pro Havai, Egito, lua, mergulhou no oceano, esteve num castelo medieval . A última foto foi dentro de um avião. Desconfiamos que ela estava voltando.                                                                                                              Num dia, preparamos uma cidade para ela voltar (com tudo que mais amamos) e ela veio de paraquedas. Alguns sabiam falar a língua da boneca e ouviam o que ela queria. Realizavamos os desejos dela.
As crianças, através da boneca, expressavam seus desejos e viajavam pelo mundo! A brincadeira e o imaginário são os passaportes para qualquer lugar que se queira ir: tudo é possível! Quando ouvem a boneca estão, na verdade, ouvindo a si mesmos. Uma criança, Gabrielle, estava com dificuldade de ouvir a boneca, achou que não sabia falar bonequês. Ficou triste. Emily, outra crianças, disse pra ela: “Claro que vc sabe, só que a Boñequita fala baixinho, vc tem que ouvir lá no fundo”. Gabrielle colocou a boca da boneca no ouvido e depois de um instante pulou de alegria. “Simmm, eu ouvi, eu ouvi!!!”. Entrou no imaginário.

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