Charlene Lemos é Bibliotecária Responsável da Biblioteca Temática de Direitos Humanos  Maria Firmina dos Reis, que integra o CFCCT.

Perguntas feitas por Renata Casemiro a Charlene Lemos:

Pergunta: Qual a importância da Cidade Tiradentes ter um Centro Cultural do porte do CFCCT?

Resposta: Cidade Tiradentes é um distrito que teve seu processo de fundação nos anos de 1970, através de uma política habitacional do antigo Banco Nacional do Desenvolvimento Habitacional que criava prédios de apartamentos para população operária. Hoje o bairro concentra mais de 500 mil habitantes e infelizmente é caracterizado por ser um bairro dormitório, conhecido pelos seus altos índices de vulnerabilidade social, violência e ausência do Estado em varias esferas. Por outro lado, possuí uma ativa vida cultural que revelam a resistência e militância por uma transformação política e social dos seus moradores, as linguagens artísticas do teatro, da música e da dança são manifestações culturais da comunidade que tem nos últimos anos recebido reconhecimento internacional pela qualidade estética.

O Centro de Formação Cultural é um espaço que vem sendo construído pela população para que suas manifestações artísticas se revelem como um Direito Cultural garantido.

Pergunta: Qual o papel da Biblioteca Temática de Direitos Humanos Maria Firmina dos Reis?

Resposta: Na história do bairro também existe um longo processo de luta e conquista por acesso ao livro e à literatura que levou mais de três décadas até se concretizar na existência de bibliotecas públicas e comunitárias no bairro.

A Biblioteca Maria Firmina dos Reis tem por objetivo principal  o de associar Direitos Humanos e Literatura numa busca constante pela construção de uma cidadania ativa, a partir da leitura crítica do texto literário.

Pergunta: Quem foi Maria Firmina?

Resposta: Maria Firmina dos Reis foi uma escritora negra maranhense do século XVIII, ela foi a primeira pessoa a escrever um romance abolicionista no Brasil.

Dessa maneira, Maria Firmina representa simbolicamente todas as mulheres de Cidade Tiradentes, migrantes ou descendentes de migrantes nordestinos que vêem nos livros e na educação uma oportunidade de questionar a realidade social, numa busca incessante por Direitos Humanos.

 Pergunta: Quais os 10 mais pedidos feitos na Biblioteca?

Resposta: Em 2014, dentre os títulos mais emprestados tivemos cinco títulos do Nicholas Sparks, autor norte-americano de best sellers, seguido dos livros infantis, ver tabela abaixo.

  Título Autor QTD.
Querido John Nicholas, Sparks 35
A escolha Nicholas, Sparks 35
Turma da Mônica em o mágico de Oz Sousa, Maurício 35
Uma amor para recordar Nicholas, Sparks 32
A menina que roubava livros Zusak, Markus 31
Diário de Julieta Ziraldo 29
Harry Potter e a pedra filosofal Rowling, J. K. 29
Diário de um banana Kinney, Jeff 29
Harry Potter e o prisioneiro de Azkaban Rowling, J. K. 29
10º Noites de tormenta Nicholas, Sparks 28

Pergunta: Qual a importância de um bom atendimento na Biblioteca?

Resposta: Compartilhamos da visão de uma Biblioteca não é apenas um lugar em que se coleciona livros, mas ela é essencialmente um espaço público para reunir pessoas em torno da arte, neste caso, da literatura.

 O bom atendimento faz com que a comunidade se sinta acolhida e queira vir e permanecer na Biblioteca.

Bibliotecas silenciosas e vazias apenas revelam que as pessoas não querem estar lá, isso é muito ruim.

Pergunta: Biblioteca é o lugar onde se pode pensar em arte e cultura?

Resposta: Sem sombra de dúvidas!

Pergunta: O PIÁ e a Biblioteca formam que parceria?

Resposta: O PIÁ sempre foi um parceiro fundamental na construção da identidade da Biblioteca. Apresentando o universo dos livros infantis para as crianças de forma carinhosa e lúdica, ocupando o espaço, se fazendo presente nas programações e atividades.

 Por isso, sempre fizemos questão de também abrir o espaço para as exposições, intervenções artísticas, brincadeiras do PIA na Biblioteca. Dessa forma, as crianças sempre voltavam com suas famílias.

 Até hoje, crianças que eram do PIÁ alguns anos atrás frequentam a Biblioteca.

Pergunta: Gostaria que você escrevesse sobre a parceria do PIÁ no segundo Café com Direitos, e a importância da discussão sobre inclusão.

Resposta: No cotidiano da Biblioteca durante os seus quase três anos de funcionamento nos deparamos com situações que fizeram nos questionar como deveríamos agir, principalmente no que se refere a inclusão no espaços e nas atividades culturais de pessoas deficientes. Sempre que possível compartilhamos nossas angustias com os funcionários e também com os artistas orientadores dos Programas PIA e Vocacional. Em uma dessas conversas com a equipe do PIA que atua no CFCCT propusemos em organizar em conjunto um debate sobre o tema, oportunidade em que poderíamos com pessoas dialogar com profissionais que possuíam informações sobre a temática.

Dessa maneira, organizamos juntamente com a equipe do PIA o “Café com Direitos: cultura e inclusão, com o objetivo de debater a eliminação ou a redução das dificuldades de acesso e participação dos deficientes nas atividades dos espaços públicos culturais, como bibliotecas, casas de cultura, centros cultural etc. Com base no recém aprovado “Estatuto da Pessoa com Deficiência.

O debate como um todo foi muito rico, começamos as apresentações com a Michele e a Elisabete, da APD, depois a Bianca, fonoaudióloga do CAPS Infantil de Guaianases, complementou a fala delas no ponto de vista da criança. Entre outras coisas, conseguimos compreender a diferenciação de transtornos mentais e deficiência mental. Logo após o Daniel Freitas (artista orientador do Programa Vocacional e Instituto Laramara) nos contou a experiência de vida e artística dele como uma pessoa que possuí 25% de visão. Também nos mostrou lindos trabalhos de artes visuais realizada por pessoas que são atendidas no instituto Laramara. Todos ficamos encantados, mas os adolescentes do Programa Jovens Urbanos, ficaram realmente tocados. Foi lindo! Para encerrar a Maria Carolina, da Biblioteca de Cultura Surda, do Centro Cultural São Paulo, nos trouxe um panorama bem interessante sobre o universo da cultura surda, ainda pouco conhecido em nossa sociedade.

Enfim, nós como funcionários da Biblioteca Maria Firmina dos Reis, artistas orientadores e público em geral, aproveitamos o momento para relatar nossas angustias, compartilhar nossos medos, ouvir e aprender muito com cada um desses agentes. No final do encontro, nos sentimos tranquilizados e dispostos a receber e acolher as pessoas com deficiência. Respeitar e compreender os limites do outro e pensar formas deles se sentirem bem vindos aqui. Um caminho sem fórmulas predeterminadas e sem receitas prescritas por médicos.

Estiveram presentes pessoas da DRE, do CRAS, do DEC, do PIÁ e dos Jovens Urbanos, um grupo pequeno, mas bem interessado nessas questões. O pessoal da educação e da assistência social se disseram surpresos de ter recebido um convite como esse da área da Cultura. Acho que precisamos rever nossos conceitos e postura como equipamento público de cultura.

A reflexão e a discussão foi válida, mas agora estamos pensando em estratégias para conseguirmos incluir de fato as pessoas com deficiência em nosso espaço e atividades.

Pergunta: Quais as lembranças marcantes do PIÁ na Biblioteca?

 Resposta: São tantas boas lembranças, mas vou enumerar uma de cada ano.

Em 2013 o PIA trabalhou a construção de brinquedos com materiais recicláveis e ao final realizaram uma bela exposição na Biblioteca. Ficamos muito orgulhosos de sediar a exposição.

Em 2014 as crianças do PIA frequentaram muito a biblioteca, mas foi emocionante quando elas criaram um vídeo chamado a Liga da Justiça do PIA que se passava na Biblioteca.

 Em 2015 o que mais emocionou foi a exposição sobre o processo de reflexão desenvolvido pelas artistas orientadoras a partir do fato das crianças estarem inconformadas com a derrubada de uma árvore nas redondezas do CFCCT.

Pergunta: Sobre a participacão do PIA na Flict, qual a importância das açoes do PIÁ na Biblioteca? O que há de reverberação?

 Resposta: Sempre visualizamos o PIÁ como parte integrante do CFCCT e o ideal é que o Programa esteja incluído em todas as atividades. Planejando, participando e avaliando cada protejo. Quando pensamos em realizar a FLICT, o PIÁ e o Vocacional tinham que estar presentes, pois eles são o carro chefe de um equipamento de formação cultural, pois trazem a formação artística em sua essência.

Pergunta: Quais os  desejos para o PIÁ no equipamento?

 Resposta: Enquanto o PIA nos surpreender com o carinho com que trata cada criança, que estimula a criatividade artística, que propõe intervenções estéticas, só podemos desejar vida longa ao Programa.

 

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